Tópicos de meditação para encontro sacerdotal

 

Permanecer em Cristo e o mandamento novo do amor, Jo 15, 9-17

A partir João Miguel Pereira, Permanecereis no meu amor - Uma leitura exegético-teológica de Jo 15, 9-17 (Braga: UCP, 2020)

«9 Assim como o Pai me amou[1], assim Eu vos amei[2] a vós. Permanecei no meu amor. 10 Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis[3] no meu amor, assim como Eu, que guardei[4] os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor. 11 Disse[5]-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha[6] alegria, e a vossa alegria seja completa. 12 É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. 13 Ninguém tem mais amor do que quem dispõe[7]a vida em favor[8] dos seus amigos. 14 Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. 15 Já [9]não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos[10] amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi da parte[11] de[12] meu Pai. 16 Não fostes vós que me escolhestes: mas[13] fui eu que vos escolhi a vós e vos destinei[14] a que vades[15] e a que deis (produzais)[16] fruto, e o vosso[17] fruto permaneça; e assim[18], tudo o que peçais[19] ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá[20]. 17 É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros».

 

Permanecei no meu amor.

O apelo de Jesus a permanecer no seu amor estende-se a todos os cristãos, obviamente. No entanto, nós, sacerdotes, como discípulos do Senhor, que havemos de conduzir outros homens e mulheres ao mesmo discipulado, somos especiais destinatários da exortação de Jesus a permanecer no seu amor.

O verbo grego que traduzimos por permanecer (μένειν) pode traduzir-se também por “morar”, “ficar em”, “perdurar”, “continuar”, “demorar”, etc. Umas vezes assume um carácter espacial, como em Jo 2, 12 («Depois disto, desceu a Cafarnaúm com sua mãe, os irmãos e os seus discípulos, e ficaram ali apenas alguns dias») e ainda em Jo 1, 38 («Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: “Que pretendeis?” Eles disseram-lhe: “Rabi - que quer dizer Mestre - onde moras?”»); outras vezes um carácter temporal, como em Jo 12, 34: («Aquela gente replicou-lhe: “Nós aprendemos na nossa Lei que o Messias permanece vivo para sempre”»), e ainda como estado ou condição, em Jo 12, 24 («Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto»), onde se retrata a imutabilidade.

Permanecer em Jesus implica ficar intimamente unido a Ele, escutando e conhecendo a sua Palavra, instalando-se nela e dela tirando a sua força para a vida; morar com Ele, aprendendo a sua forma de viver e atuar, estar ininterruptamente e reciprocamente ligado a Ele pela fé e pela oração. As condições para “permanecer” estão indicadas na Primeira Carta de João, e são: caminhar segundo o exemplo de Cristo (2, 6); conservar-se fiel à doutrina tradicional (2, 24); confessar que Jesus é o Filho de Deus (4, 15); observar os mandamentos (3, 24a; 2, 5), e cultivar o amor a Deus e aos irmãos (4, 12.16b-21).

 

Não fostes vós que me escolhestes: mas fui eu que vos escolhi a vós

Outro aspeto importante de recordarmos, como discípulos e ainda mais com sacerdotes, é a gratuidade do dom que Deus nos concedeu ao livremente nos escolher como discípulos e como sacerdotes. Não por virtude dos nossos méritos, mas segundo a sua bondade. (Rezar Ef, 1, 3-14)

Permanecer em Jesus implica também que o discípulo se deixe amar pelo Senhor, acolhendo em liberdade o dom do seu amor que lhe é gratuitamente oferecido (Jo 15, 16). Deus nunca anula a liberdade humana nem impõe a sua presença contra a vontade humana. Permanecer em Jesus implica o acolhimento consentido do seu amor; implica aceitar a eleição que Deus realizou desde toda a eternidade.

 

É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei.

Tertuliano repara que o amor fraterno entre os cristão, que se tratavam por irmãos, e a solicitude de uns para comos outros e até para com os pagãos, deixava nos séculos II e III os pagãos espantados: Vide, inquint, ut invicem se diligant: “vejam como eles se amam entre eles” (Tertulliani Liber Apologeticus, XXXIX). Como poderá o mundo não reparar na forma como nós, Igreja, comunidade dos discípulos de Cristo, nos tratamos uns aos outros? E mais: Como poderá o mundo e a comunidade cristã não reparar no modo como nós, sacerdotes, nos tratamos uns aos outros? Quem poderá sentir desejo de integrar uma comunidade onde aqueles que se dizem irmãos se espezinham, injuriam, armam ciladas, são insensíveis ao sofrimento mútuo, se descartam…? Quem poderá dar crédito a um grupo de sacerdotes que prega o amor fraterno, mas que não sabe (e o pior é que tantas vezes nem quer saber) viver fraternalmente como grupo?

Aquele que fez a experiência do amor de Deus, e que deseja amá-lo, deve também amar os seus irmãos. Sem o amor voltado para o outro não existe autêntica comunhão com Deus. Para João, é pela prática do mandamento novo do amor que se devem reconhecer os discípulos de Jesus Cristo (Jo 13, 35: Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros).

É notável a discordância entre o plural utilizado no v. 10 («se guardardes os meus mandamentos [τὰς ἐντολάς]») e o singular utilizado no v. 12 («é este o meu mandamento [ ἐντολὴ]»). Em João, parece que todas as recomendações que Jesus faz aos discípulos se sintetizam no amor mútuo. De facto, a sua «enunciação no singular facilita a sua realização, pois não se trata de ter em conta muitas normas mas sim de cumprir uma só». Esta é a ideia que transparece tanto do Evangelho como das cartas joaninas (1Jo 3, 22-24; 4, 21 - 5, 3). «É como se, para a tradição joanina, não existisse mais que um só mandamento que resumia todos os demais: “este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (15, 12)».

João chama de mentirosa a pessoa que diz conhecer a Deus, mas não guarda os seus mandamentos, ao passo que, naquele que guarda os mandamentos, o amor de Deus é perfeito e pode reconhecer-se como estando em Deus (1Jo 2, 4-5).

A prática do amor mútuo entre os crentes é distintiva da sua nova identidade de discípulos (Jo 13, 35), ao mesmo tempo que lhes garante a presença das pessoas divinas nas suas vidas (Jo 14, 23) e o dom da vida eterna (Jo 17, 3), porque são fiéis à vida divina neles depositada, assemelhando-se Àquele que os elegeu. João sugere também que a prática do amor mútuo entre os discípulos de Jesus, apresenta-os diante dos homens como membros da família divina (1Jo 3, 1).

Só «graças ao amor fraterno que une os seus membros entre eles, [é que] a Igreja se torna espelho do Filho, como o Filho é imagem do Pai; ela manifesta àqueles que a vêm o amor do Pai e do Filho e leva-os a crer em Cristo». Só consolidada pelo amor, na inclusão da diversidade dos seus membros, a Igreja pode ser ícone da Santíssima Trindade.

Também amar alguém significa, com efeito, amar aqueles que esse ama (Jo 16, 27). De facto, «o Pai ama Jesus não só porque ele é o seu Filho unigênito (10, 17; 15, 9; 17, 23.26), mas também porque ele é o caminho de seu amor pelo mundo. Deus ama, em Jesus, a humanidade pecadora, e esta terá salvação quando decidir acolher o Enviado do Pai, isto é, o próprio Jesus, o dom de Deus ao mundo (3, 16)». Do mesmo modo, também «Jesus não pode amar o Pai sem amar igualmente aqueles que o Pai lhe deu (6, 37; 10, 29)». Disto se conclui que o homem não pode amar a Deus se não amar também aqueles a quem Deus amou primeiro (1Jo 4), e isto inclui amar os inimigos e os pecadores.

 

vos destinei a que vades e a que deis (produzais) fruto, e o vosso fruto permaneça

Como cristãos, e ainda mais como sacerdotes, precisamos de aprender e progredir no amor fraterno, nos laços de amizade, no respeito mútuos, na solidariedade e cooperação. Precisamos aprender a falar bem uns dos outros, a elogiar-nos, a ajudarmo-nos a crescer, em especial na fé e no conhecimento da Teologia, conviver mais e mais alegremente, alegrarmo-nos com os êxitos uns dos outros, contribuirmos para que todos possamos progredir na missão. Só assim a nossa missão pode dar fruto. Só assim poderemos fazer rejuvenescer e dilatar a Igreja. Só assim surgirão novos discípulos e vocações. Só assim nos tornaremos credíveis e viáveis! O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas. Precisamos crer o que lemos, ensinar o que cremos e, acima de tudo, viver o que ensinamos, pois esse testemunho é que dará frutos.

Dessa eleição, Jesus quer que eles vão e deem fruto. Parece dar-se um aceno missionário, ainda que para alguns autores não necessariamente. Indiscutível será que «o aspeto dominante continua a ser a fecundidade da vida cristã, especialmente o amor fraterno». «O “fruto” da ação dos discípulos não são os homens, mas a vida de amor de Deus nos homens (cf. 1Jo 3, 13s; 4, 16)». «O amor cristão é apostólico ao ser um sinal distintivo e atraente, um meio instrumental plenamente eficaz para transmitir a mensagem de Cristo. Com o amor mútuo constitui-se a Igreja como Comunidade visível onde o amor fraterno é uma realidade notória e atrativa». Interessante será sublinhar o sentido antagónico da afirmação « καρπὸς ὑμῶν μένῃ (fruto que permaneça)» pois, o que é próprio do fruto é ser efémero e putrefactivo. Introduz-se aqui um elemento novo: a perseverança ou persistência na vivência do mandamento do amor mútuo. «Deve dar-se uma reciprocidade vivificante persistente gerada pela união dos discípulos com Jesus e a união dele com eles», pois, só mediante uma permanência recíproca, eles podem gerar fruto que não apodrece. Dar fruto, simboliza assim, na perspetiva de Raymond Brown, «a posse da vida divina e que, num plano secundário, implicava a comunicação dessa vida aos demais». Os discípulos foram, como nos ensina a Primeira Carta de Pedro, regenerados por uma semente incorruptível, a Palavra de Deus que vive e permanece.

Na realidade, nenhum fruto pode ser permanente, o mesmo entendemos como eterno, se não tiver o selo divino: «tudo passa, só Deus não passará». O selo divino, que frutifica nos discípulos «fruto que permaneça» (Jo 15, 16), é o selo do amor, pois, como escreve São Paulo num belíssimo hino, jamais passará (1Cor 13, 8: «Ἡ  ἀγάπη  οὐδέποτε  πίπτει»). Também São João concretiza dizendo que «Deus é amor» (1Jo 4, 8: «ὁ  Θεὸς  ἀγάπη  ἐστίν»). Não me parece abusivo, por isso, afirmar que o que tiver o selo do amor agápico tem o cunho da eternidade.

 

Uma utopia?

Jesus é, para os cristãos, o modelo de como estes devem viver e amar. Não podemos, contudo, esquecer que, se é verdade que Cristo nos amou como homem, também é verdade que o fez como Deus. Amar como Ele amou é, por isso, uma meta muito alta, inalcançável só pelas forças humanas. «É verdade que o modelo será sempre inatingível, mas o homem há-de pôr um empenho contínuo para aproximar-se quanto possível ao ideal proposto». Chegar à meta implica ultrapassar progressivas etapas num caminho que preenche toda a vida: ascese (ἄσκησις), no sentido desportivo grego (cf. 1Cor 9, 24-27).

Não podemos ficar-nos pelas palavras ou por meros sentimentos instalados, no que toca a vida cristã. Para João, o amor a Deus envolve mais efetividade que afetividade, ainda que não a exclua. É necessário prová-lo com factos. Como demonstramos o amor de Deus revelado em Jesus Cristo quando não somos capazes de amar os irmãos? João alerta-nos para a mentira em que incorre aquele que se diz amar a Deus, mas não ama o irmão (1 Jo 4, 1 9-21 ). «Servir a Deus em detrimento do ser humano desacredita intrinsecamente qualquer tipo de religião, qualquer gesto religioso», pois «o amor ao próximo é sacramento visível do amor a Deus, aquilo que o credibiliza, o prova, o isenta de qualquer ambiguidade e falsa ilusão».

 

 

 



[1] ἠγάπησέν: verbo ἀγαπάω (amar), no indicativo aoristo ativo, terceira pessoa do singular. Na edição da Difusora Bíblica (Ed.DB), opta-se por utilizar o presente «tem amor».

[2] ἠγάπησα: verbo ἀγαπάω (amar), no indicativo aoristo ativo, primeira pessoa do singular. Na Ed.DB, opta-se por utilizar o presente «amo».

[3] μενεῖτε: verbo μένω (permanecer, esperar), no indicativo futuro ativo, segunda pessoa do plural. Na Ed.DB, opta-se por utilizar o presente «permaneceis».

[4] τετήρηκα: verbo τηρέω (guarda, observar, vigiar) no pretérito perfeito indicativo ativo, primeira pessoa do singular. Na Ed.DB, opta-se por utilizar o presente «tenho guardado». A necessária simultaneidade com μένω mostra tratar-se de um perfeito extensivo até ao presente: cf. Juan Mateos, Juan Barreto, El Evangelio de Juan (Madrid: Cristiandad, 19923), 662.

[5] λελάληκα: verbo λαλέω (falar, tagarelar) no indicativo perfeito ativo, primeira pessoa do singular. Uma tradução literal apresentaria como «(acabei de) dizer/disse». É diferente da opção tomada na Ed.DB, «manifestei-vos»: διαδηλόω (tornar evidente, expor claramente), ou σαφηνίζω (esclarecer, mostrar).

[6] ἡ χαρὰ ἡ ἐμὴ: pode ter um sentido exclusivo ou meramente característico, como neste caso; cf. Juan Mateos, Juan Barreto, El Evangelio de Juan (Madrid: Cristiandad, 19923), 662.

[7] θῇ: verbo τίθημι (pôr, colocar, dispor, expor, depositar a um lado para si, determinar, instituir), no aoristo conjuntivo ativo, terceira pessoa do singular. Na Ed.DB, opta-se em utilizar o verbo «dar».

[8] ὑπέρ: preposição (em nome de). Na Ed.DB, opta-se em utilizar «pelos».

[9] οὐκέτι: advérbio (não mais). Comumente, traduz-se por «não mais» ou «já não», mas também se usa como negação enfática «Não, não vos chamo servos» (cf. Jo 21,6; Mc 5,3). Jesus nunca chamou servos aos seus; o termo apareceu somente em um provérbio (13,16; 15,20), no entanto chamou «nosso amigo» a Lázaro (11, 11; cf. 11, 3) e se classificou de amor a relação entre Jesus e os três irmãos, figuras de discípulos (11, 5), e entre Jesus e os discípulos em geral (13, 1.34; 14, 15.21; 15, 9, etc.). O domínio próprio de senhor (correlativo com o de servo) ficou excluído no lava-pés (13, 14) e novamente neste versículo. Cf. Juan Mateos, Juan Barreto, El Evangelio de Juan (Madrid: Cristiandad, 19923), 663.

[10] εἴρηκα: verbo λέγω (perguntar, chamar) no indicativo perfeito ativo, terceira pessoa do singular. É um perfeito extensivo até ao presente: «chamo-vos». Cf. Juan Mateos, Juan Barreto, El Evangelio de Juan (Madrid: Cristiandad, 19923), 663.

[11] παρά: preposição (ao lado, na presença de), substituída na Ed.DB por «ao». A Tradução Ecuménica da Bíblia traduz por «junto de».

[12] τοῦ  Πατρός: está no genitivo. Corresponde a um complemento determinativo, pedido pela preposição «παρά» (+ genitivo).

[13] ἀλλ’: conjunção ἀλλά (mas, exceto), omitida na Ed.DB.

[14] ἔθηκα: verbo τίθημι (pôr, colocar, dispor, expor, depositar a um lado para si, determinar, instituir) no aoristo indicativo ativo, primeira pessoa do singular. Os documentos P 66 Θ 892s al substituem-no por «δωσει υμ»: «Δωσει»: verbo δίδωμι (dar, oferecer, servir, procurar, entregar, consentir), no futuro indicativo ativo, terceira pessoa do singular.

[15] ὑπάγητε: verbo ὑπάγω (ir embora, partir, morrer) no presente do conjuntivo ativo, segunda pessoa do plural. Na Ed.DB, opta-se por utilizar «ir».

[16] Φέρητε: verbo φέρω (levar, produzir, ter, oferecer, transportar, conduzir), no conjuntivo presente ativo, segunda pessoa do plural. Na Ed.DB, opta-se por utilizar o infinitivo «dar».

[17] ὑμῶν: pronome possessivo, no genitivo da segunda pessoa do plural. Na Ed.DB, omite-se.

[18] ὅ τι: conjunção ὅτι (que, porque). Traduzida aqui como na Ed.DB.

[19] αἰτήσητε: verbo αἰτέω (pedir, rogar), no aoristo conjuntivo ativo, na segunda pessoa do plural. Na Ed.DB, opta--se por utilizar «pedirdes».

[20] δῷ: verbo δίδωμι (dar, oferecer, servir, procurar, entregar, consentir), no aoristo conjuntivo ativo, terceira pessoa do singular. Na Ed.DB, opta-se por utilizar o futuro «concederá».




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