• é frustrante, confesso, quando sabem que és padre e, quase de imediato, te associam a um ser anacrónico e até destituído de credibilidade.
• sim, eu sei, os abusos, querer sexuais quer de poder, continuam a ser uma ferida por cicatrizar! e, é certo, em muito causaram esta ideia!
• e digo-o: é urgente reconhecer e condenar as atrocidades cometidas por aqueles a quem estava confiada a missão de cuidar.
• todavia, sinto-me, por vezes, vítima colateral dos abusos de alguns padres!
e aqueles que não têm que ver com os abusos? somos todos um alvo a abater?
• um dia, sonhei que os padres não eram obrigados a serem super-homens, mas podiam reconhecer-se frágeis, necessitados de gestos de atenção e cuidado.
• sonhei que os padres para se assemelharam a Jesus não tinham que ser anjos, mas podiam amar a sua humanidade, sem serem julgados por amar, nem criticados por chorar.
• sonhei que os padres não tinham de se esconder quando se sentiam cansados e feridos, porque não queriam ser perfeitos, mas felizes e, na verdade, também ninguém lhes exigia que fossem a ‘Terra Prometida’.
• sonhei que os padres não viviam isolados, mas se relacionavam com quem se interroga e com quem duvida, com quem ri e com quem chora, sem serem mal inesperados por agir desse modo.
• sonhei que os padres reconheciam que Deus não quer que se assassinem a seu serviço, mas que vivam do seu Amor, o que implica ‘morrer’, mas não anular-se.
• sonhei que os padres viviam a tensão entre as ‘convicções da Igreja’ e as ‘inquietações do mundo’, sabendo que não há um equilíbrio perfeitamente correto.
• sonhei que os padres podiam encontrar a vida contemplativa também em ambientes descristianizados, talvez ásperos, é certo,
mas isso recordava-os que não eram detentores da verdade.
• sonhei que os padres ‘traduziam a tradição’ em inéditos processos eclesiais e não eram marionetas de execução de programas eclesiásticos.
• sonhei com uma Igreja que era território de celebração da vida, atravessado pelo quotidiano, que não ficava sequestrada pelo formalismo, que não se concentrava no odor a naftalina e a insenso, mas que se impestava ao cheiro das vidas das pessoas.
• sonhei, mas penso suceder-se connosco o mesmo que ao Titanic. Lembram-se quando o Titanic embateu contra o iceberg e o capitão acabou por pedir aos músicos para continuarem a tocar, enquanto as pessoas se debatiam no meio de tanta tribulação?
• às vezes, é o que sucede na Igreja: andamos aflitos, mas parece que é mais fácil pedir para tocar violino.
e até se diz que a barca da Igreja é inafundável, mas esquecemos que o Espírito já nos enviou imensos avisos…
• vale-nos o sonho, esse sedento de que lhe seja dada Vida!
Padre Dr. Pedro Sousa, Arquidiocese de Braga
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